E ai modinhas!
Acho engraçado como pequenas coisa me comovem e me modificam, esses dia vi uma reportagem do "O Popular" sobre a Vera da Bicicleta, uma senhora simples, aposentada da policia civil e ciclista por opção. Quando falo "ciclista", não me refiro a atleta, falo de ciclista de dia-a-dia, bicicleteira (goianes bruto) ou melhor "Bicicreteira" (kkkk)
Ela foi pioneira na Policia Civil, aposentou, venceu na Faculdade, virou professora e mais algumas coisinha.
Certa vez tinha lido uma citação do pintor van Gogh falava que grandes coisas não se fazem por impulso, mas pelo emaranhado de pequenas coisas. Acho que uma grande pessoa se faz realmente assim, por uma serie de pequenas ações.
Então leiam e conheçam a Dona Vera!
"12/09/2015 05:01 Wildes Barbosa
Pedala, limpa a gota de suor que
escorre pelo rosto e volta a pedalar. A subida é íngreme, mas fôlego não falta
à ciclista de inacreditáveis 61 anos. Fôlego e coragem marcam a trajetória de
Vera Lúcia Nascimento Virgílio, agente da Polícia Civil de Goiás aposentada.
Nas ruas de Goiânia, ela é conhecida como a moça da bicicleta, o que provoca um
imenso sorriso. Os dentes muito brancos contrastam com a pele negra. Ganhou o
apelido de Vera Sorriso. Para todo lado que vai, é na bike. Quando resolve se
aventurar pela cidade a pé, sempre aparece alguém perguntando:
- E a bike?
A paixão pela companheira de duas
rodas, quase uma extensão do corpo de 47 quilos distribuídos em 1,69 m de
altura, nasceu ainda criança ao ver o pai pedalar. Mineiro de Uberlândia, José
Virgílio veio para Goiânia nos anos 1950 para ser gerente de uma pensão na
Avenida Anhanguera, em Campinas. Tinha planos de dar uma vida melhor à família.
A nova capital ainda era um projeto de cidade e a bicicleta, o meio mais
apropriado para circular pelas ruas de poeira vermelha.
Da garupa do pai, guarda as
melhores lembranças da infância. As piores também. A esquina, o carro em alta
velocidade e a bicicleta retorcida no chão sujo de sangue fazem parte das
memórias de Vera. Foi em cima dela que José Virgílio morreu aos 40 anos. Deixou
uma viúva, duas filhas pequenas e o sonho de uma vida melhor. A foto dele na
parede da casa virou um pequeno altar. Mas o que era para ser um trauma da
infância de Vera Sorriso virou estímulo pela luta por um trânsito mais humano.
A moça herdou do pai o amor pelo pedal e a bicicleta retorcida que voltou a
andar.
- Sua morte é uma dor que trago
comigo, mas pedalar me faz sentir mais próxima dele.
Pedala, desvia dos carros que
espalham nuvens de fumaça preta e volta a pedalar. Alguns passam rente, bem
pertinho, mas a mulher na bicicleta continua serena a pedalar. Sofreu um único
acidente em todos esses anos de ciclista. O retrovisor de uma van bateu em sua
cabeça e a jogou no chão. Os 30 pontos são testemunhas de que ela não morreu
por milagre. Chegou coberta de sangue ao hospital em uma viatura do Corpo de
Bombeiros. Nada, porém, que abalasse sua paixão por pedalar. Já viu amigos
ciclistas tombarem no chão e nunca mais levantarem.
Como tantos outros ciclistas de
Goiânia, Vera parece ter se acostumado a lidar cotidianamente com uma realidade
hostil: motoristas que enxergam o ciclista como um estorvo no trânsito. Apesar
dos riscos, a mulher tímida tem orgulho de ter conseguido agregar qualidade de
vida ao tomar a decisão de usar a bicicleta como meio de transporte. Direção
defensiva e doses de bom humor são as armas de Vera Sorriso para seguir
pedalando. Do vento no rosto e da sensação de liberdade, ela não abre mão.
Pedala, respira fundo e volta a
pedalar. Bicicleta mais pesada que o normal. Pneu furado. Desce e empurra, não
importa a distância. Não desistir no meio do caminho faz parte da história da
moça da bicicleta que nos anos 1970 se tornou a primeira mulher a ser agente da
Polícia Civil de Goiás. Após o concurso - que teve provas de resistência física
como correr com um saco de 50 quilos de areia nas costas sob um sol escaldante
- Vera foi preparada por dois anos para exercer o cargo.
- As pessoas me aconselharam a
ser escrivã, trabalhar com algo mais administrativo. Mas minha vontade sempre
foi estar na rua prendendo bandido. Desde pequena assistia a filmes policiais e
aquilo não saía da minha cabeça.
Além da discriminação por ser uma
menina de 18 anos em um universo masculino, Vera sentiu na pele o preconceito
racial. Única negra da turma, nunca pensou em desistir do curso mesmo ouvindo
diariamente piadinhas pouco inspiradas. Para azar dos céticos, conquistou o
segundo lugar na classificação geral e recebeu das mãos do então governador
Leonino Di Ramos Caiado o diploma de agente de polícia. A carteira de
identidade é guardada com orgulho até hoje.
Seu desempenho serviu como teste
para as mulheres continuarem na área. Hoje elas avançam em ritmo acelerado nos
quadros da instituição. Na primeira ocorrência, uma prisão por tráfico de
drogas, o bandido menosprezou a força e a destreza da franzina policial. Com
golpes de judô, ela imobilizou e prendeu o criminoso. Conquistou
definitivamente o respeito dos colegas. Na Polícia Civil, onde trabalhou por
mais de 35 anos, Vera Lúcia colecionou amigos e admiradores.
Cleonice Gomes de Carvalho,
ex-colega, costuma dizer que Vera Sorriso é uma pessoa inteligente e destemida.
Foi inspirada na amiga ciclista que Cleonice aprendeu a pedalar após os 30 anos
de idade. Até pouco tempo, para Vera sempre era assustador encontrar alguém que
não soubesse andar de bicicleta. Perdeu as contas de quantas pessoas ensinou o
que para ela é tão natural quanto respirar.
Pedala, quebra o freio, pedala, a
corrente cai, pedala, o quadro racha. A bicicleta desmonta por inteiro. Vera
cai na risada. Lembra de uma viagem com um amigo para Caldas Novas. No meio do
caminho, a bike não aguentou o tranco e desmontou. Viajaram mais de 24 horas se
alternando na garupa. Há um entusiasmo quase adolescente na voz da sexagenária
ao contar a peripécia.
Ao falar da paixão de sua vida, o
“namorido” Salomão, de 88 anos, ruboriza. O amor bateu duas vezes em sua porta.
Do primeiro casamento, nasceu seu filho único, Walner Gustavo Virgílio, de 34
anos. Quando Salomão apareceu, há dez anos, Vera abriu o coração. O carinho dos
dois é bonito de se ver. Salomão não deixa o avançar da idade tirar a alegria
de viver. O programa favorito do casal, além de namorar nos fins de semana, é
pescar no lago do condomínio onde Vera vive, no Balneário Meia Ponte. Muita
gente espalhou maledicências por causa da diferença de idade do casal. Mas Vera
não é muito de ouvir opinião alheia. Não é mesmo. Se ouvisse os conselhos da
mãe, a aposentada Elza Nascimento Vírgilo, de 83 anos, não teria feito curso de
paraquedista e se pendurado em cabos de rapel. Se escutasse o filho, parava de
andar de bicicleta à noite para ir e voltar da faculdade de Letras no Jardim
Nova Esperança, onde cursa sua segunda graduação.
Para dona Elza, mãe de Vera, a
inquietação da filha têm a ver com o trabalho de parto longo, que durou mais de
nove dias. O filho Walner concorda e diz que ele próprio teve sorte de não
nascer em cima de uma bicicleta. Barrigão enorme e lá ia Vera pedalando numa
bicicleta preta com uma garupa enorme que logo ganhou o apelido de Fuscão
Preto.
De bicicleta, Vera Sorriso já fez
curso de mecânica, de servente de pedreiro, faculdade de Educação Física,
libras e está terminando o curso de inglês - sua nova paixão. Gosta de treinar
a mente. Quer ficar bem velhinha, ativa. A aposentadoria na polícia foi para
que tivesse mais tempo de se dedicar aos esportes e aos estudos. Complementa a
renda dando aulas de Português e Literatura em uma escola particular para
crianças.
A atual bicicleta de Vera é de
uma simplicidade quase franciscana. Após ter um modelo moderno roubado, mandou
montar outra com peças usadas. Sabe que em Goiânia não se pode seduzir bandido.
Uma vez uma colega de trabalho disse que gostaria de ganhar na loteria para
ajudá-la. Imaginou que Vera anda há tanto tempo de bicicleta por razões
econômicas. Um carro novinho e uma moto na garagem desmentem a teoria.
- Pedalo porque me faz sentir
viva.
Pedala, ergue a cabeça, olha o
horizonte, sorri e volta a pedalar. Nas ruas de Goiânia, a moça da bicicleta
segue seu caminho com coragem e fôlego. "
Se quiserem assistir a entrevista entrem no link e confiram.
http://www.opopular.com.br/editorias/cidades/vera-foi-pedalar-para-ficar-mais-perto-do-pai-1.944099
Vamo q vamo!!!
