terça-feira, 15 de setembro de 2015

Como alguém simples pode ser tão grande!


E ai modinhas!

Acho engraçado como pequenas coisa  me comovem e me modificam, esses dia vi uma reportagem do "O Popular" sobre a Vera da Bicicleta, uma senhora simples, aposentada da policia civil e ciclista por opção. Quando falo "ciclista", não me refiro a atleta, falo de ciclista de dia-a-dia, bicicleteira (goianes bruto) ou melhor "Bicicreteira" (kkkk)

Ela foi pioneira na Policia Civil, aposentou, venceu na Faculdade, virou professora e mais algumas coisinha.

Certa vez tinha lido uma citação do pintor van Gogh falava que grandes coisas não se fazem por impulso, mas pelo emaranhado de pequenas coisas. Acho que uma grande pessoa se faz realmente assim, por uma serie de pequenas ações.

Então leiam e conheçam a Dona Vera!

"12/09/2015 05:01                                                                                     Wildes Barbosa


Pedala, limpa a gota de suor que escorre pelo rosto e volta a pedalar. A subida é íngreme, mas fôlego não falta à ciclista de inacreditáveis 61 anos. Fôlego e coragem marcam a trajetória de Vera Lúcia Nascimento Virgílio, agente da Polícia Civil de Goiás aposentada. Nas ruas de Goiânia, ela é conhecida como a moça da bicicleta, o que provoca um imenso sorriso. Os dentes muito brancos contrastam com a pele negra. Ganhou o apelido de Vera Sorriso. Para todo lado que vai, é na bike. Quando resolve se aventurar pela cidade a pé, sempre aparece alguém perguntando:

- E a bike?

A paixão pela companheira de duas rodas, quase uma extensão do corpo de 47 quilos distribuídos em 1,69 m de altura, nasceu ainda criança ao ver o pai pedalar. Mineiro de Uberlândia, José Virgílio veio para Goiânia nos anos 1950 para ser gerente de uma pensão na Avenida Anhanguera, em Campinas. Tinha planos de dar uma vida melhor à família. A nova capital ainda era um projeto de cidade e a bicicleta, o meio mais apropriado para circular pelas ruas de poeira vermelha.

Da garupa do pai, guarda as melhores lembranças da infância. As piores também. A esquina, o carro em alta velocidade e a bicicleta retorcida no chão sujo de sangue fazem parte das memórias de Vera. Foi em cima dela que José Virgílio morreu aos 40 anos. Deixou uma viúva, duas filhas pequenas e o sonho de uma vida melhor. A foto dele na parede da casa virou um pequeno altar. Mas o que era para ser um trauma da infância de Vera Sorriso virou estímulo pela luta por um trânsito mais humano. A moça herdou do pai o amor pelo pedal e a bicicleta retorcida que voltou a andar.

- Sua morte é uma dor que trago comigo, mas pedalar me faz sentir mais próxima dele.

Pedala, desvia dos carros que espalham nuvens de fumaça preta e volta a pedalar. Alguns passam rente, bem pertinho, mas a mulher na bicicleta continua serena a pedalar. Sofreu um único acidente em todos esses anos de ciclista. O retrovisor de uma van bateu em sua cabeça e a jogou no chão. Os 30 pontos são testemunhas de que ela não morreu por milagre. Chegou coberta de sangue ao hospital em uma viatura do Corpo de Bombeiros. Nada, porém, que abalasse sua paixão por pedalar. Já viu amigos ciclistas tombarem no chão e nunca mais levantarem.

Como tantos outros ciclistas de Goiânia, Vera parece ter se acostumado a lidar cotidianamente com uma realidade hostil: motoristas que enxergam o ciclista como um estorvo no trânsito. Apesar dos riscos, a mulher tímida tem orgulho de ter conseguido agregar qualidade de vida ao tomar a decisão de usar a bicicleta como meio de transporte. Direção defensiva e doses de bom humor são as armas de Vera Sorriso para seguir pedalando. Do vento no rosto e da sensação de liberdade, ela não abre mão.

Pedala, respira fundo e volta a pedalar. Bicicleta mais pesada que o normal. Pneu furado. Desce e empurra, não importa a distância. Não desistir no meio do caminho faz parte da história da moça da bicicleta que nos anos 1970 se tornou a primeira mulher a ser agente da Polícia Civil de Goiás. Após o concurso - que teve provas de resistência física como correr com um saco de 50 quilos de areia nas costas sob um sol escaldante - Vera foi preparada por dois anos para exercer o cargo.

- As pessoas me aconselharam a ser escrivã, trabalhar com algo mais administrativo. Mas minha vontade sempre foi estar na rua prendendo bandido. Desde pequena assistia a filmes policiais e aquilo não saía da minha cabeça.

Além da discriminação por ser uma menina de 18 anos em um universo masculino, Vera sentiu na pele o preconceito racial. Única negra da turma, nunca pensou em desistir do curso mesmo ouvindo diariamente piadinhas pouco inspiradas. Para azar dos céticos, conquistou o segundo lugar na classificação geral e recebeu das mãos do então governador Leonino Di Ramos Caiado o diploma de agente de polícia. A carteira de identidade é guardada com orgulho até hoje.

Seu desempenho serviu como teste para as mulheres continuarem na área. Hoje elas avançam em ritmo acelerado nos quadros da instituição. Na primeira ocorrência, uma prisão por tráfico de drogas, o bandido menosprezou a força e a destreza da franzina policial. Com golpes de judô, ela imobilizou e prendeu o criminoso. Conquistou definitivamente o respeito dos colegas. Na Polícia Civil, onde trabalhou por mais de 35 anos, Vera Lúcia colecionou amigos e admiradores.

Cleonice Gomes de Carvalho, ex-colega, costuma dizer que Vera Sorriso é uma pessoa inteligente e destemida. Foi inspirada na amiga ciclista que Cleonice aprendeu a pedalar após os 30 anos de idade. Até pouco tempo, para Vera sempre era assustador encontrar alguém que não soubesse andar de bicicleta. Perdeu as contas de quantas pessoas ensinou o que para ela é tão natural quanto respirar.

Pedala, quebra o freio, pedala, a corrente cai, pedala, o quadro racha. A bicicleta desmonta por inteiro. Vera cai na risada. Lembra de uma viagem com um amigo para Caldas Novas. No meio do caminho, a bike não aguentou o tranco e desmontou. Viajaram mais de 24 horas se alternando na garupa. Há um entusiasmo quase adolescente na voz da sexagenária ao contar a peripécia.

Ao falar da paixão de sua vida, o “namorido” Salomão, de 88 anos, ruboriza. O amor bateu duas vezes em sua porta. Do primeiro casamento, nasceu seu filho único, Walner Gustavo Virgílio, de 34 anos. Quando Salomão apareceu, há dez anos, Vera abriu o coração. O carinho dos dois é bonito de se ver. Salomão não deixa o avançar da idade tirar a alegria de viver. O programa favorito do casal, além de namorar nos fins de semana, é pescar no lago do condomínio onde Vera vive, no Balneário Meia Ponte. Muita gente espalhou maledicências por causa da diferença de idade do casal. Mas Vera não é muito de ouvir opinião alheia. Não é mesmo. Se ouvisse os conselhos da mãe, a aposentada Elza Nascimento Vírgilo, de 83 anos, não teria feito curso de paraquedista e se pendurado em cabos de rapel. Se escutasse o filho, parava de andar de bicicleta à noite para ir e voltar da faculdade de Letras no Jardim Nova Esperança, onde cursa sua segunda graduação.

Para dona Elza, mãe de Vera, a inquietação da filha têm a ver com o trabalho de parto longo, que durou mais de nove dias. O filho Walner concorda e diz que ele próprio teve sorte de não nascer em cima de uma bicicleta. Barrigão enorme e lá ia Vera pedalando numa bicicleta preta com uma garupa enorme que logo ganhou o apelido de Fuscão Preto.

De bicicleta, Vera Sorriso já fez curso de mecânica, de servente de pedreiro, faculdade de Educação Física, libras e está terminando o curso de inglês - sua nova paixão. Gosta de treinar a mente. Quer ficar bem velhinha, ativa. A aposentadoria na polícia foi para que tivesse mais tempo de se dedicar aos esportes e aos estudos. Complementa a renda dando aulas de Português e Literatura em uma escola particular para crianças.

A atual bicicleta de Vera é de uma simplicidade quase franciscana. Após ter um modelo moderno roubado, mandou montar outra com peças usadas. Sabe que em Goiânia não se pode seduzir bandido. Uma vez uma colega de trabalho disse que gostaria de ganhar na loteria para ajudá-la. Imaginou que Vera anda há tanto tempo de bicicleta por razões econômicas. Um carro novinho e uma moto na garagem desmentem a teoria.

- Pedalo porque me faz sentir viva.

Pedala, ergue a cabeça, olha o horizonte, sorri e volta a pedalar. Nas ruas de Goiânia, a moça da bicicleta segue seu caminho com coragem e fôlego.  "


Se quiserem assistir a entrevista entrem no link e confiram.
http://www.opopular.com.br/editorias/cidades/vera-foi-pedalar-para-ficar-mais-perto-do-pai-1.944099


Vamo q vamo!!!

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